Brasil, outubro de 2016.

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Ontem sonhei com você. Não foi um sonho bonito, com gramado verde e borboletas voando pelos campos de trigo nem uma das noites que me fazem acordar cheia de tesão pelo dia, pela vida e tudo mais. Eu apanhava, muito. Quando conseguia olhar para cima, procurava algum rosto para identificar e denunciar assim que saísse dali. Só via o seu. De longe. E pouco importaria se eu acusasse você. Você, soberana, não encostava em mim. Suas palavras me cortavam mais do que os rasgos feitos com adaga.
Pareceu durar dias esse sonho. Alguma coisa me puxava pra dentro dele toda vez que eu tentava acordar. De todos, foi o mais difícil de sair.
O ambiente era mais ou menos este. Entre amigos, bebíamos e jogávamos papo pro ar, como se não houvesse problema na vida de ninguém. Tudo corria normalmente até que olhei pro lado e vi você encostada na parede, embaixo de uma loja de artigos religiosos, observando a gente, ouvindo nossas vozes.
Flash.
Um dos que estava na mesa sumiu.
Flash.
Menos dois.
Em outro lugar, estávamos conversando e você apareceu, efeito especial, filme. Pesadelo.
Dando a entender ser somente mais uma querendo atravessar a rua, você tentava ouvir nossas vozes. Ficou parada atrás da gente e ninguém percebeu meu desconforto. Eu via reaparecer, nos seus olhos, a sádica certeza de que é você quem manda e manipula.
Fomos sumindo, um a um, até tudo apagar, até o susto chegar, até eu acordar com esse sentimento ruim. Acordar e ter, como primeiro pensamento, todas as injustiças vindas de você para esses nossos dias.
Você é meio bicho, né? Não se importa, o negócio é mastigar e engolir sem sentir gosto, só para se abastecer de algo e cagar logo depois. Você não presta, você limita, anula, se faz de sonsa, mas é uma filha da puta, destrói planos de todas as pessoas que lutam por algo melhor neste país.
Depois desse sonho tenho andado com os olhos em todos os lados da rua. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de medo de sair e ser arrebatada por você, que não é nem um pouquinho deus.
Você se impõe, você não sabe ouvir ninguém.
E, se isso é uma mensagem, ainda não é o suficiente. Tudo aqui é um jogo. A gente aprende a jogar vivendo. A gente precisa saber perder. Você deveria pensar também dessa forma, para ver se muda um pouco essa sua cabeça. 
Até breve.
M.